Uma lesão no ovário pode causar dor, alterar o ciclo menstrual, provocar insegurança sobre a fertilidade ou, em alguns casos, não gerar sintoma algum. Este guia completo da ooforoplastia explica quando a cirurgia pode ser recomendada, como ela busca preservar o tecido ovariano saudável e quais cuidados ajudam a tornar essa decisão mais segura.
O que é ooforoplastia?
A ooforoplastia é uma cirurgia ginecológica realizada para tratar alterações no ovário preservando, sempre que possível, a parte saudável do órgão. Em muitos casos, o procedimento envolve a retirada de um cisto, tumor benigno ou outra lesão, seguida da reconstrução do ovário para manter sua anatomia e função.
O objetivo é diferente da ooforectomia, que corresponde à retirada parcial ou total de um ou dos dois ovários. A escolha entre preservar ou remover o ovário não deve ser automática: ela depende do tipo de lesão, do aspecto encontrado nos exames, da idade da paciente, do desejo reprodutivo, da reserva ovariana e da segurança oncológica.
Para mulheres em idade reprodutiva, a preservação do tecido ovariano pode ter impacto relevante na produção hormonal e nas possibilidades de gestação futura. Ainda assim, preservar o ovário só é uma boa conduta quando essa alternativa é tecnicamente viável e clinicamente segura.
Guia completo da ooforoplastia: quando ela é indicada
A indicação cirúrgica não ocorre apenas porque um cisto foi identificado em uma ultrassonografia. Muitos cistos ovarianos são funcionais, transitórios e desaparecem espontaneamente ao longo dos ciclos menstruais. Nesses casos, o acompanhamento clínico e por imagem pode ser suficiente.
A ooforoplastia passa a ser considerada quando há sinais de que a lesão merece tratamento cirúrgico. Isso pode acontecer diante de dor pélvica persistente ou intensa, aumento progressivo da formação, suspeita de torção ovariana, ruptura de cisto com sangramento, endometrioma, teratoma ou cisto dermoide, além de massas com características que precisam de investigação mais cuidadosa.
Também há situações de urgência. Uma torção ovariana, por exemplo, pode interromper o fluxo de sangue para o ovário e costuma provocar dor súbita e forte, frequentemente acompanhada de náuseas e vômitos. Nessa circunstância, a avaliação imediata é essencial para reduzir o risco de perda da função do órgão.
Exames como ultrassonografia transvaginal, exames de sangue e, em alguns casos, ressonância magnética ajudam a definir a melhor estratégia. A decisão final, porém, é individual. O tamanho da lesão isoladamente não determina a necessidade de cirurgia.
Como a cirurgia é realizada
A via de acesso é escolhida conforme as características da lesão e as condições clínicas da paciente. Quando indicado, o procedimento pode ser feito por videolaparoscopia, técnica que utiliza pequenas incisões no abdome e uma câmera para orientar a cirurgia. Em geral, essa abordagem está associada a incisões menores, menor desconforto no pós-operatório e retorno mais rápido às atividades.
Em outras situações, pode ser necessária uma cirurgia aberta, chamada laparotomia. Isso pode ocorrer quando a massa é muito volumosa, há aderências importantes, existe suspeita de doença mais complexa ou quando a avaliação durante o ato cirúrgico exige maior acesso à região pélvica. Não se trata de uma técnica inferior, mas de uma escolha feita para aumentar a segurança do tratamento.
Durante a ooforoplastia, o cirurgião identifica a lesão, separa cuidadosamente o tecido comprometido do tecido saudável e remove o que precisa ser tratado. Em seguida, realiza a reconstrução do ovário quando necessário, buscando controlar o sangramento e preservar a maior quantidade possível de tecido funcional.
O material retirado costuma ser encaminhado para análise anatomopatológica. Esse exame confirma a natureza da lesão e orienta os próximos passos, principalmente quando há qualquer dúvida diagnóstica.
Preservação da fertilidade e função hormonal
Um dos receios mais frequentes é: a ooforoplastia afeta a fertilidade? A resposta depende de cada caso. Quando a cirurgia preserva uma boa quantidade de tecido ovariano e o outro ovário está saudável, muitas pacientes mantêm a ovulação e a possibilidade de engravidar naturalmente.
No entanto, certas doenças podem comprometer a fertilidade independentemente da cirurgia. A endometriose ovariana é um exemplo: ela pode afetar a anatomia pélvica, a reserva ovariana e a qualidade dos óvulos. Por isso, a indicação de operar um endometrioma exige uma conversa cuidadosa sobre sintomas, tamanho, crescimento, desejo de engravidar e riscos de novas intervenções no ovário.
Também é preciso considerar que qualquer cirurgia ovariana pode reduzir parte da reserva ovariana, especialmente se houver lesões extensas, cirurgias anteriores ou doença bilateral. A técnica cirúrgica cuidadosa busca minimizar esse impacto, mas não elimina completamente essa possibilidade. Para algumas mulheres, pode ser apropriado avaliar marcadores de reserva ovariana ou discutir planejamento reprodutivo antes do procedimento.
A retirada de uma lesão do ovário não significa que a paciente entrará na menopausa. A menopausa cirúrgica está relacionada principalmente à retirada dos dois ovários, situação que tem indicações específicas e requer orientação médica individualizada.
Riscos e cuidados que precisam ser discutidos
Como toda cirurgia, a ooforoplastia envolve riscos, ainda que medidas de prevenção sejam adotadas. Podem ocorrer sangramento, infecção, dor, reações à anestesia, formação de aderências e lesão de estruturas próximas, como intestino, bexiga ou ureteres. Essas complicações são incomuns, mas precisam fazer parte de uma conversa clara antes da operação.
Há ainda riscos relacionados à própria doença. Um cisto pode voltar a aparecer, especialmente em condições como endometriose. Em casos raros, a avaliação do material cirúrgico pode revelar achados que exijam acompanhamento ou tratamento complementar.
Antes da cirurgia, a equipe solicita os exames necessários e avalia doenças preexistentes, uso de medicamentos e histórico de alergias ou trombose. Informe sempre se utiliza anticoagulantes, medicamentos para diabetes, hormônios, suplementos ou remédios de uso contínuo. A suspensão ou manutenção de cada medicamento deve ser definida pelo médico.
Também vale esclarecer expectativas. A ooforoplastia trata uma alteração identificada no ovário, mas não substitui o acompanhamento ginecológico regular nem resolve automaticamente todas as causas de dor pélvica.
Como é a recuperação após a ooforoplastia
O tempo de recuperação varia conforme a técnica utilizada, o tamanho da lesão, a complexidade da cirurgia e a resposta de cada organismo. Após videolaparoscopia, muitas pacientes retornam gradualmente a tarefas leves em poucos dias, enquanto exercícios, relações sexuais, direção e atividades com esforço podem demandar mais tempo e liberação médica.
Na laparotomia, a recuperação costuma ser mais longa devido à incisão abdominal maior. Em ambos os casos, é comum haver desconforto na região operada, sensação de inchaço, cansaço e pequenas alterações intestinais nos primeiros dias. Analgésicos prescritos, hidratação, alimentação leve e caminhadas curtas, quando liberadas, costumam ajudar nesse período.
Procure atendimento sem demora se ocorrer febre, dor que piora ou não melhora com a medicação, vômitos persistentes, sangramento vaginal intenso, secreção na ferida, vermelhidão progressiva, falta de ar ou inchaço doloroso em uma perna. Esses sinais não devem ser tratados apenas com observação em casa.
O retorno pós-operatório é parte do tratamento. É nesse momento que são avaliadas a cicatrização, o resultado do exame da lesão, a retomada das atividades e, quando necessário, o plano para fertilidade, controle de endometriose ou acompanhamento por imagem.
Perguntas frequentes sobre ooforoplastia
A ooforoplastia remove o ovário?
Em princípio, não. A finalidade é retirar a lesão e conservar o máximo possível de ovário saudável. Entretanto, se houver sangramento difícil de controlar, destruição importante do tecido, torção com comprometimento do órgão ou suspeita relevante de malignidade, a retirada parcial ou total pode ser necessária para proteger a saúde da paciente.
É possível engravidar depois da cirurgia?
Sim, muitas mulheres engravidam após uma ooforoplastia. A possibilidade real dependerá da idade, reserva ovariana, condição das trompas, presença de endometriose, saúde do outro ovário e de outros fatores do casal. Quem deseja gestar deve comunicar esse plano desde a primeira consulta.
Todo cisto no ovário precisa operar?
Não. Cistos simples e funcionais podem regredir espontaneamente. A decisão considera sintomas, aparência no ultrassom, evolução ao longo do tempo, idade e fatores de risco. Acompanhamento bem orientado evita tanto cirurgias desnecessárias quanto atrasos em situações que exigem tratamento.
Receber a indicação de uma cirurgia no ovário pode gerar dúvidas legítimas sobre dor, fertilidade e futuro. Uma avaliação ginecológica individualizada permite entender o diagnóstico, comparar alternativas e definir uma conduta que una preservação da saúde ovariana, técnica cirúrgica adequada e segurança em cada etapa do cuidado.
O Dr. Adalberto Reis Duarte é médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, com atuação em pré-natal de alto risco, pré-natal de risco habitual, parto cirúrgico e cirurgias ginecológicas.
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