Dor intensa ao sentar, caminhar ou ter contato íntimo não deve ser normalizada. Quando um cisto ou abscesso na região da glândula de Bartholin causa incômodo importante, volta a aparecer ou não melhora com a conduta inicial, a avaliação cirúrgica pode ser a melhor forma de aliviar os sintomas e reduzir novas crises. Este guia da cirurgia de bartolinite explica o que costuma ser considerado antes, durante e depois do procedimento.
A decisão não é automática e não existe uma única cirurgia para todas as pacientes. O tratamento depende do tamanho da lesão, da presença de pus, da intensidade da dor, do histórico de recorrências, da idade e do exame ginecológico. Uma conversa individualizada permite indicar a técnica mais segura para cada situação.
O que é bartolinite e quando a cirurgia é indicada?
As glândulas de Bartholin ficam em cada lado da entrada da vagina e produzem uma secreção que contribui para a lubrificação local. Quando o canal de saída de uma dessas glândulas obstrui, pode surgir um cisto. Se houver infecção, o quadro passa a ser chamado de bartolinite, podendo formar um abscesso doloroso.
Um cisto pequeno e sem dor pode apenas ser acompanhado. Já um abscesso costuma causar aumento de volume, vermelhidão, calor local, dor pulsátil e dificuldade para se movimentar. Algumas mulheres também apresentam febre ou mal-estar, sinais que merecem atenção mais rápida.
A cirurgia é mais frequentemente indicada quando há abscesso, dor relevante, cisto volumoso, retorno do problema após tratamentos anteriores ou impacto persistente na rotina e na vida sexual. Em mulheres acima dos 40 anos, uma massa na região da glândula de Bartholin exige avaliação cuidadosa e, em alguns casos, coleta de material para análise. Essa conduta é uma medida de segurança, pois lesões malignas nessa área são raras, mas precisam ser excluídas.
Guia da cirurgia de bartolinite: quais técnicas podem ser usadas?
A palavra cirurgia pode causar apreensão, mas muitos procedimentos para bartolinite são de pequeno porte e têm o objetivo direto de drenar a secreção acumulada e evitar que o canal feche novamente. A melhor alternativa só é definida após exame presencial.
Drenagem com cateter
Na presença de abscesso, o ginecologista pode realizar uma pequena abertura para esvaziar o conteúdo e colocar um cateter fino, conhecido como cateter de Word. Ele mantém uma passagem aberta durante algumas semanas para que uma nova via de drenagem se forme.
Essa opção costuma ser menos invasiva e pode ser indicada principalmente no primeiro episódio de abscesso. O cateter pode causar sensação de corpo estranho nos primeiros dias, mas muitas pacientes conseguem retomar atividades leves rapidamente. Se ele sair antes do tempo, a orientação médica deve ser procurada para definir se é necessário reposicioná-lo.
Marsupialização
A marsupialização é uma técnica em que o cisto ou abscesso é aberto, drenado e suas bordas são suturadas de forma a criar uma abertura permanente de drenagem. Ela costuma ser considerada nos quadros recorrentes, em cistos maiores ou quando a estratégia com cateter não foi adequada.
Em geral, é feita em ambiente hospitalar ou cirúrgico, com anestesia escolhida de acordo com o caso e o conforto da paciente. Apesar de ser um procedimento relativamente breve, exige cuidados locais e acompanhamento na recuperação.
Retirada da glândula de Bartholin
A excisão da glândula é reservada para situações específicas, como recorrências frequentes que não melhoraram com outras abordagens ou suspeita clínica que demande investigação mais ampla. É uma cirurgia mais extensa, com maior possibilidade de sangramento e desconforto no pós-operatório quando comparada à drenagem ou à marsupialização.
Por isso, não costuma ser a primeira opção. O benefício de resolver episódios repetidos deve ser ponderado diante dos riscos cirúrgicos e do tempo de recuperação.
Como é o preparo para o procedimento?
O preparo começa com uma consulta detalhada. O ginecologista avalia os sintomas, examina a região, identifica se há abscesso e conversa sobre doenças prévias, alergias, medicamentos em uso, possibilidade de gravidez e episódios anteriores de bartolinite. Quando existe secreção, exames podem ser solicitados em situações selecionadas, especialmente se houver suspeita de infecção sexualmente transmissível ou sinais de infecção mais extensa.
Nem toda bartolinite requer antibiótico. O medicamento pode ser indicado quando há febre, celulite na pele ao redor, risco aumentado de infecção, suspeita de infecção sexualmente transmissível ou outros fatores clínicos. Ele não substitui a drenagem quando existe um abscesso bem formado, pois o acúmulo de pus precisa ser tratado adequadamente.
Se o procedimento for realizado com sedação, anestesia regional ou geral, podem ser necessárias orientações de jejum e exames pré-operatórios. Informe com antecedência o uso de anticoagulantes, medicamentos para diabetes e qualquer tratamento contínuo. Também é prudente organizar a volta para casa com um acompanhante quando houver anestesia que comprometa os reflexos.
Recuperação: o que esperar nos primeiros dias
Após a cirurgia, é comum haver sensibilidade, leve inchaço e pequeno sangramento ou saída de secreção. Analgésicos prescritos, repouso relativo e higiene cuidadosa ajudam a controlar o desconforto. Banhos de assento mornos podem ser recomendados em alguns casos, mas devem seguir a orientação individual recebida no pós-operatório.
A recuperação varia conforme a técnica utilizada. Após uma drenagem simples, algumas pacientes melhoram da dor de forma rápida, pois a pressão do abscesso é aliviada. Depois de uma marsupialização ou retirada da glândula, a cicatrização tende a exigir mais tempo e atenção.
Evite relações sexuais, absorventes internos, duchas vaginais, piscina e esforço físico até receber liberação médica. Essas restrições protegem a cicatrização e reduzem o risco de sangramento, dor e infecção. Roupas íntimas de algodão e peças mais folgadas também podem trazer mais conforto na primeira semana.
O retorno ao trabalho depende da atividade exercida e do procedimento realizado. Funções sedentárias podem permitir volta mais precoce, enquanto trabalhos com esforço físico, longos deslocamentos ou muita movimentação podem exigir alguns dias adicionais. A recomendação deve ser personalizada, não baseada apenas em comparações com a recuperação de outras pessoas.
Sinais de alerta após a cirurgia
A maioria das pacientes evolui bem, mas alguns sintomas precisam de avaliação sem demora. Procure orientação médica se houver febre, dor que piora em vez de melhorar, sangramento intenso, mau cheiro forte, aumento importante do inchaço, vermelhidão que se espalha ou dificuldade para urinar.
Também é importante entrar em contato se o cateter sair precocemente, se houver alergia a medicamentos ou se a secreção persistir de forma preocupante. Não tente drenar, apertar ou cortar a lesão em casa. Além de aumentar a dor, essa atitude pode agravar a infecção e atrasar o tratamento correto.
A bartolinite pode voltar?
Pode. O risco de recorrência existe porque a obstrução do canal pode acontecer novamente, especialmente quando foi feita apenas uma drenagem simples. Técnicas que mantêm uma via de saída, como o cateter ou a marsupialização, são utilizadas justamente para diminuir essa possibilidade.
Ainda assim, recorrência não significa que a paciente fez algo errado com a higiene ou com os cuidados íntimos. A bartolinite não é causada por falta de limpeza. Excesso de produtos perfumados, duchas vaginais e manipulação local podem, inclusive, irritar a região. O mais adequado é manter higiene externa suave e buscar avaliação ao perceber novo caroço, dor ou aumento de volume.
Sentir vergonha ou adiar a consulta é compreensível, mas não precisa fazer parte desse processo. Um atendimento ginecológico acolhedor esclarece as opções, respeita o seu desconforto e define a abordagem cirúrgica com base em segurança clínica. Para pacientes em Belém, Ananindeua ou por telemedicina quando apropriado, o acompanhamento com um especialista permite transformar uma crise dolorosa em um plano de tratamento claro e seguro.
O Dr. Adalberto Reis Duarte é médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, com atuação em pré-natal de alto risco, pré-natal de risco habitual, parto cirúrgico e cirurgias ginecológicas.
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