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Dr Adalberto Reis Duarte Ginecologista e Obstetra

156- Cerclagem ou progesterona cervical: quando indicar?

Cerclagem ou progesterona cervical: quando indicar?

Uma medida de colo uterino reduzida em uma ultrassonografia, principalmente no segundo trimestre, pode trazer uma preocupação imediata: há risco de parto prematuro? A busca por “cerclagem ou progesterona cervical” costuma aparecer justamente nesse momento. Embora as duas estratégias possam fazer parte da prevenção em situações específicas, elas têm indicações diferentes e precisam ser escolhidas a partir da história obstétrica, do exame físico e dos achados da gestação atual.

A decisão não deve ser tomada apenas com base em um número isolado do ultrassom. Um colo curto pode exigir acompanhamento mais próximo, progesterona vaginal, cerclagem uterina ou, em algumas situações, apenas vigilância. O cuidado individualizado evita tanto deixar de tratar um risco real quanto realizar um procedimento sem benefício comprovado para aquela paciente.

O que significa ter o colo do útero curto?

O colo do útero é a porção inferior do útero, que permanece fechado durante a maior parte da gravidez. À medida que o parto se aproxima, ele tende a encurtar, amolecer e dilatar. Quando essas mudanças acontecem precocemente, pode haver maior chance de parto prematuro.

A medida mais confiável é feita pela ultrassonografia transvaginal. Em gestações únicas, um colo com menos de 25 mm antes de 24 semanas costuma ser considerado curto. Ainda assim, esse dado precisa ser interpretado com cuidado: a idade gestacional, os sintomas, o histórico de perdas e partos prematuros e a presença ou não de dilatação mudam completamente a conduta.

Um colo curto não significa que o parto prematuro inevitavelmente acontecerá. Ele é um sinal de atenção. Por isso, o pré-natal de alto risco busca identificar a causa provável e definir a intervenção que oferece maior segurança em cada cenário.

Cerclagem ou progesterona cervical: a diferença começa na indicação

Embora a expressão “progesterona cervical” seja frequente, o tratamento empregado é, em geral, a progesterona por via vaginal. Ela atua localmente e pode ajudar a reduzir o risco de parto prematuro em gestantes selecionadas com colo uterino curto.

A cerclagem, por sua vez, é um procedimento cirúrgico. O obstetra coloca uma fita ou ponto resistente ao redor do colo do útero para reforçar sua sustentação. Ela é realizada no ambiente hospitalar, com anestesia, e a técnica varia conforme a situação clínica. Não é uma alternativa automática à progesterona, nem a progesterona substitui a cerclagem em todos os casos.

A pergunta correta não é apenas “qual é melhor?”. A pergunta mais segura é: qual estratégia oferece benefício comprovado diante da minha história e do estado atual do colo uterino?

Quando a progesterona vaginal pode ser recomendada

A progesterona vaginal é frequentemente considerada para gestantes de feto único que apresentam colo uterino curto na ultrassonografia antes de 24 semanas, especialmente quando não há sinais de dilatação cervical e não existe uma indicação clara de cerclagem.

O uso costuma ser diário, na dose e pelo período definidos pelo obstetra. A paciente precisa receber orientação sobre a forma correta de aplicação e sobre efeitos que podem ocorrer, como aumento de secreção vaginal, sensação de umidade ou irritação local. Sangramento, dor pélvica intensa, contrações ritmadas, saída de líquido ou febre não devem ser atribuídos automaticamente à medicação e exigem avaliação médica.

A progesterona não “fecha” o colo e não corrige uma dilatação já instalada. Seu objetivo é reduzir a chance de mudanças precoces que levem ao parto prematuro em determinadas pacientes. Por isso, a resposta ao tratamento é acompanhada ao longo do pré-natal.

Quando a cerclagem uterina pode ser indicada

A cerclagem é mais associada à insuficiência istmocervical, situação em que o colo tende a abrir precocemente, muitas vezes com pouca ou nenhuma dor. A indicação pode surgir de três formas principais.

A primeira é a cerclagem indicada pela história clínica. Ela pode ser considerada quando a paciente teve perdas gestacionais no segundo trimestre ou partos muito prematuros relacionados à dilatação indolor do colo, principalmente se esse padrão se repetiu.

A segunda é a cerclagem guiada pela ultrassonografia. Em geral, ela é avaliada quando há antecedente de parto prematuro espontâneo e, na gestação atual, o exame mostra encurtamento significativo do colo antes de 24 semanas. Nesse grupo, o procedimento pode trazer benefício que a simples observação não oferece.

A terceira situação é a cerclagem de urgência, também chamada de exame físico-indicada. Ela pode ser discutida quando há dilatação do colo detectada no exame ginecológico, às vezes com membranas ovulares visíveis. É uma situação mais delicada, na qual é necessário excluir trabalho de parto ativo, infecção, sangramento relevante e ruptura da bolsa antes de avaliar se há segurança para o procedimento.

Cada uma dessas situações tem riscos e benefícios próprios. A cerclagem pode causar cólicas, sangramento, ruptura prematura das membranas ou infecção, embora seja realizada justamente para tentar reduzir um risco obstétrico relevante. A conversa transparente sobre esses pontos faz parte de uma decisão bem conduzida.

Nem todo colo curto precisa de cerclagem

Esse é um ponto que evita procedimentos desnecessários. Em uma paciente sem parto prematuro anterior, com gestação única e colo curto identificado ao ultrassom, a progesterona vaginal costuma ser a estratégia inicialmente considerada. A cerclagem não é indicada de forma rotineira apenas porque a medida ficou abaixo de 25 mm.

Por outro lado, uma paciente com história fortemente sugestiva de insuficiência cervical pode ter indicação de cerclagem mesmo antes de apresentar encurtamento importante na gestação atual. É por isso que levar relatos detalhados de gestações anteriores, laudos, resultados de ultrassons e informações sobre perdas anteriores ajuda muito no planejamento do pré-natal.

Também existem situações em que nem a progesterona nem a cerclagem são a resposta imediata. Contrações regulares, suspeita de infecção, ruptura da bolsa e sangramento precisam ser investigados com prioridade. Nesses casos, tratar a causa ou definir a melhor conduta obstétrica vem antes de decidir sobre uma intervenção no colo.

E nas gestações gemelares?

As gestações de gêmeos merecem análise ainda mais cuidadosa. O risco de parto prematuro é naturalmente maior, mas as evidências para progesterona vaginal e cerclagem não são iguais às observadas em gestações de um único bebê. Uma conduta que funciona em uma gravidez singleton não deve ser reproduzida automaticamente em uma gravidez gemelar.

A recomendação depende do comprimento do colo, da existência de dilatação, do tipo de gestação gemelar, da idade gestacional e do histórico obstétrico. Nesses casos, o acompanhamento com obstetra habituado ao pré-natal de alto risco é especialmente valioso.

Como é o acompanhamento depois da decisão?

Se a conduta for progesterona, o obstetra orientará a duração do uso e a necessidade de novas ultrassonografias transvaginais. Se for indicada cerclagem, haverá avaliação pré-operatória, realização do procedimento em ambiente adequado e acompanhamento para identificar sintomas que necessitem de atendimento.

Após uma cerclagem, a paciente deve procurar assistência sem demora se tiver perda de líquido, sangramento vaginal, febre, dor abdominal progressiva, contrações ou pressão pélvica intensa. Também é fundamental seguir as recomendações individualizadas sobre atividades, vida sexual e retornos. Restrições absolutas para todas as pacientes não são uma regra, pois dependem do motivo da cerclagem e da evolução clínica.

Em geral, o ponto é retirado próximo ao termo da gestação, frequentemente por volta de 36 a 37 semanas, ou antes caso o trabalho de parto comece ou haja outra indicação obstétrica. Quando existe previsão de cesariana antes do início do trabalho de parto, o momento da retirada será planejado de acordo com o caso.

Uma decisão técnica, com espaço para acolhimento

Receber a notícia de colo curto pode despertar medo, sobretudo em quem já viveu uma perda ou um parto prematuro. Acolher essa preocupação não significa indicar uma intervenção por ansiedade. Significa explicar com clareza o que foi encontrado, quais riscos existem de fato, quais são as alternativas e como será feita a vigilância.

Na consulta, vale perguntar qual é a medida do colo, em que semana foi obtida, se há dilatação, qual é o seu risco individual e por que determinada conduta foi recomendada. Uma paciente bem orientada consegue reconhecer sinais de alerta e participa com mais segurança das escolhas do pré-natal.

Para mulheres em Belém, Ananindeua ou em acompanhamento por telemedicina, a avaliação pode começar com a revisão dos exames e da história clínica, mas decisões sobre cerclagem dependem de exame presencial e estrutura hospitalar adequada. Em uma situação com suspeita de dilatação, sangramento, dor ou perda de líquido, a prioridade é buscar atendimento obstétrico imediato.

A melhor conduta é aquela que protege a gestação sem promessas irreais: com escuta atenta, critérios médicos e acompanhamento próximo em cada etapa que exigir cuidado.

Dr. Adalberto Reis Duarte

 

Dr. Adalberto Reis Duarte é médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, com atuação em pré-natal de alto risco, pré-natal de risco habitual, parto cirúrgico e cirurgias ginecológicas.

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